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Uso de antioxidantes nos pacientes oncológicos... Um contra-senso?






Todos já ouvimos falar em antioxidantes e, mesmo sem saber exatamente o que são, nem como funcionam, a verdade é que é-nos intrínseco associa-los a algo bom! Antioxidante é um conceito que nos surge, geralmente, como um sinónimo de "anti-envelhecimento" e, talvez por isso, gostemos tanto deles, afinal quem é que não gostava de parecer jovem para sempre? Ouvimos falar com frequência em antioxidantes, mas afinal quem são eles e o que fazem? E se são bons, porque poderia a sua utilização ser um contra-senso ou fruto de debate em pacientes oncológicos?






Em primeiro lugar vamos esclarecer porque existem os antioxidantes e, para isso, vamos entrar numa máquina do tempo e iniciar uma viagem molecular e começar da base... Lembram-se quando há muitos anos na disciplina de fisico-química (sim há mesmo muito tempo atrás) aprendemos a tabela periódica, e que portanto, que existem vários elementos químicos?

Estes elementos são átomos, os quais apresentam uma determinada carga elétrica que nos é dada pela sua quantidade de electrões. Estes, por sua vez, circulam em torno do núcleo do átomo, em diversos níveis de energia, os quais vão sendo ocupados gradualmente, de acordo com a sua capacidade de lotação. Assim, um átomo poderá ter diferentes níveis de energia, sendo que o último nível de energia geralmente não está completo, por isso, estas partículas são instáveis e têm tendência a se agruparem, originando moléculas, como por exemplo a água, conhecida pela sua forma molecular H2O = associação de 2 átomos de hidrogénio + 1 átomo de oxigénio.

Continuando a nossa viagem... ao se agruparem, os átomos podem estabelecer entre si ligações mais ou menos fortes, e originar estruturas (moléculas) com arranjos tridimensionais diferentes. São depois estas moléculas que se vão também organizando e ligando entre elas e, originando estruturas cada vez mais complexas - matéria - como nutrientes, organelas celulares, seres uni e pluricelulares... Neste momento compreendemos que tudo e todos somos matéria, ou seja, tudo e todos somos constituídos pelos mesmos elementos fundamentais.

No entanto, para que um ser vivo, planta, animal ou mesmo, um ser unicelular como uma bactéria, possa existir, é essencial que consiga produzir energia, a qual é necessária para que esse possa manter as suas atividades normais... no caso de uma célula, para que essa possa exercer a sua função específica, de acordo com o tecido em que se encontra e para que se possa ainda dividir/ multiplicar. Esta energia de que falamos é mais uma vez uma molécula, a molécula de adenosina trifosfato (ATP), que se obtém através da conversão das unidades dos macronutrientes (glucose, no casos dos hidratos de carbono, aminoácidos, para as proteínas e, ácidos gordos, no exemplo das gorduras), obtidas após a digestão dos alimentos. Esta conversão é na verdade uma sequência de reações químicas que pode ocorrer por 2 vias diferentes: fosforilação oxidativa/ respiração aeróbia (com utilização de oxigénio), através do ciclo de Krebs, ou pela respiração anaeróbia (na ausência de oxigénio), através do ciclo de Cori. É durante a respiração celular (lembrar que respiração celular = sequência de reações químicas que ocorrem no interior da célula com o objetivo de obter ATP) que se formam os chamados radicais livres, estes correspondem a átomos ou moléculas instáveis, ou seja, com falta de 1 ou mais eletrões no seu último nível de energia. Estas moléculas instáveis reagem então com diferentes componentes das células, como as organelas celulares citoplasmáticas ou mesmo a parede celular, criando aí instabilidade nas ligações entre os átomos que as constituem, e comprometendo por isso, a sua normal função. Assim percebemos que os radicais livres são prejudiciais para a célula, pois interferem com a sua integridade, ou seja, com o seu funcionamento e viabilidade.

No entanto, as células estão programadas para sobreviver, e por isso, apesar de formarem radicais livres, elas utilizam os chamados antioxidantes para repôr o equilíbrio. Os antioxidantes têm como objetivo doar um eletrão para os radicais livres de forma a estabiliza-los. Porém, é quando se altera este equilíbrio que se promove a acumulação das espécies de radicais livres, fenómeno frequentemente chamado por stress oxidativo. O stress oxidativo ocorre por meio de agentes externos capazes de desiquilibrar este sistema, na área da oncologia, esses agentes são denominados por carcinogéneos, como são exemplos o fumo do tabaco, radiação, poluição, alguns compostos sintéticos por vezes utilizados como preservantes na comida ou que integram as fibras de tecidosa... A exposição repetitiva e/ou prolongada a este tipo de disrruptores causa danos celulares, quer diretamente sobre as estruturas celulares (lembrar que todas são moléculas), quer indiretamente interferindo com o normal processo de respiração celular, de ambas as formas originando a acumulação de radicais livres. Esta instabilidade no potencial elétrico da célula pode conduzi-la à sua morte (processo denominado por apoptose) ou conduzir gradualmente à sua perda de capacidade em funcionar normalmente, originando as chamadas doenças degenerativas, ou no pior cenário, e ainda associado a uma complexidade de outros eventos, ao desenvolvimento de tumores.

Agora espero que seja fácil compreender que o consumo de antioxidantes ajuda a regular o equilíbrio do potencidal elétrico da célula, e que o seu consumo não deve ser descurado na dieta do quatidiano, pois diariamente, tanto nós como os nossos animais, somos expostos a agentes com capacidade de induzir stress oxidativo.

Os antioxidantes podem ser endógenos ou nutricionais. Os endógenos podem ser enzimas, como superóxido dismutase, catalase, enzimas dependentes da glutationa, ou antioxidantes não enzimáticos (produzidos pelo metabolismo no corpo) como o ácido lipóico, L-arginina, coenzima Q10, melatonina, ácido úrico, bilirrubina etc. Os antioxidantes nutricionais (exógenos) são a vitamina E, vitamina C, carotenóides, oligoelementos, flavonóides, polifenóis, etc. (No fim do texto encontram-se exemplos de fontes alimentares ricas nestes antioxidantes e fáceis de encontrar.)



Regressando à nossa questão inicial - será o uso de antioxidantes nos pacientes oncológicos um contra-senso?

No caso de um tratamento oncológico por via de medicina convencional, são utilizadas terapêuticas, como a radioterapia e a quimioterapia, que têm como objetivo promover a morte celular, mais especificamente, a morte das células neoplásicas. Falando do que temos disponível no nosso país, a quimioterapia... Existem diferentes fármacos que podem ser utilizados, os quais apresentam diferentes mecanismos de ação. Alguns destes quimioterápicos apresentam como efeito secundário a acumulação de radicais livres, o que conduz as células à sua morte, como é o caso dos agentes alquilantes, antraciclinas e compostos de platina. Desta forma pode realmente parecer um contra-senso a utilização de antioxidantes durante os tratamentos quimioterápicos, pois parece que ao impedir/ diminuir a acumulação de radicais livres estamos assim a impedir a morte das células tumorais. Mas, como em tantas outras áreas da medicina, estudos estão constantemente a ser realizados e com eles, mais conhecimento se vai adquirindo e moldando. De acordo com a literatura mais recente, sabe-se que ao contrário da apoptose induzida por stress oxidativo, o intenso stress oxidativo induzido por estes fármacos inibe a atividade da caspase (enzima envolvida nas reações de apoptose) e por isso, a morte das células neoplásicas. Artigos recentes referem que a utilização de antioxidantes durante os cursos de quimioterapia encontra-se indicada pois:

  • não interfere com o tratamento,

  • aumenta o efeito citotóxico do fármaco quimioterápico,

  • protege o tecido normal,

  • aumenta a sobrevida do paciente e a resposta terapêutica.


É importante relembrar que a quimioterapia possui efeitos sistémicos, e como tal atua também sobre as células saudáveis do organismo, comprometendo o seu funcionamento ou levando mesmo à sua morte. Por isso, sempre que se pondera a realização de tratamentos que são invasivos para as células saudáveis, devemos sempre fazer o máximo para protege-las... eliminar o tumor, respeitando ao máximo o paciente.



Vitamina E: Vitamina lipossolúvel, ou seja, que se dissolve em gordura e, por isso, a sua absorção é facilitada quando ingerida com alimentos mais ricos em gordura. Somente as plantas conseguem sintetizar esta vitamina, as fontes mais ricas são os óleos de origem vegetal (ex: azeite), frutos secos (ex: amendoins) e ainda plantas com folhas escuras (ex: espinafres e couves).


Vitamina C: Ao contrário das pessoas, cães e gatos conseguem sintetizar vitamina C a partir da glucose, não sendo assim um nutriente essencial para eles. Os alimentos ricos em vitamina C são os citrinos, morangos, kiwi, pimentos... Importante mencionar que a concentração desta vitamina nos alimentos decresce rapida e drasticamente durante o seu armazenamento e processamento.


Carotenóides: São uma classe de pigmentos lipofílicos sintetizados somente por plantas, bactérias, fungos e algas. Encontram-se facilmente naqueles que têm coloração alaranjada/ amarela: cenouras, abóbora, batata-doce, tomate.








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