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Alimentar o Paciente Oncológico


À semelhança do cenário em medicina humana, também a incidência de cancro em cães e gatos tem vindo a aumentar ao longo dos anos. As entidades oncológicas são variadas, e seja pela sua localização (ex: tumores no sistema digestivo – que podem desenvolver sintomatologia gastrointestinal, como vómitos, diarreia e dificuldade na ingestão de alimentos (disfagia)), pela sua exigente demanda de energia (para rápido crescimento e disseminação celulares) ou mesmo por agravar outras patologias já existentes, desencadeiam um balanço energético negativo no animal. Por este motivo, uma abordagem nutricional nestes pacientes é de extrema importância, desde o momento do diagnóstico, de forma a evitar um estado de malnutrição.


Fatores a ter em conta, quando se determina um plano nutricional para estes pacientes:


O ANIMAL

  • Exame físico – com extrema importância para a determinação da condição corporal, peso e comorbilidades

  • Existência de sensibilidades/ alergias alimentares

  • Existência de outras patologias prévias

  • Medicações que o animal já esteja a fazer


O TUMOR

  • Localização do tumor

  • Grau de malignidade

  • Tratamento médico ao qual o animal é submetido (cirurgia e/ou quimioterapia e/ou radioterapia e/ou terapias não convencionais)




A dieta para o paciente oncológico tem como objetivos:

  • Restrição calórica – É muito importante que animal mantenha ou atinja uma condição corporal normal, e não se encontre gordinho. A ideia de que o animal se estiver mais gordinho quando inicia um tratamento oncológico, o vai aguentar melhor, pois vai conseguir superar as fases em que terá menos apetite, encontra-se totalmente errada. Animais com excesso de peso apresentam resistência periférica à insulina, produção continua de mediadores pro-inflamatórios por parte do tecido adiposo (promovendo o estado inflamatório em que o organismo já se encontra), sobretudo no caso dos gatos, facilmente os predispõe ao desenvolvimento de lipidose hepática.

  • Baixa em hidratos de carbono simples

  • Ser palatável

  • Fornecer suporte ao funcionamento do sistema imunitário

De uma forma geral, a dieta para estes pacientes, deve conter entre 50 a 60% da sua energia (calorias) proveniente de gordura, 30 a 50% proveniente de proteínas e o restante de hidratos de carbono solúveis.



Diferentes tipos de dietas


Como já sabemos existem diferentes formas de alimentar um animal, desde as comidas processadas (dietas húmidas ou ração seca), dieta caseira cozinhada ou dieta crua.

Sem surpresa, na minha opinião, a melhor forma para alimentar o paciente oncológico é à base de uma dieta natural, pois apresenta elevada palatibilidade, permite facilmente fazer alterações de acordo com as necessidades e gostos do animal, oferece uma elevada biodisponibilidade dos seus nutrientes para o paciente, interfere positivamente com a epigenética do animal (o campo da nutrigenómica será abordado noutro post, somente dedicado a este tema).

As dietas cruas são frequentemente desaconselhadas nos pacientes oncológicos, pois devido à maior concentração de microorganismos, apresentam um maior risco de contaminação microbiana para o animal, sendo isto verdade para aqueles que fazem quimioterapia (ou radioterapia, uma forma de tratamento não disponível no nosso país) e/ ou que se encontrem imunossuprimidos. Isto explica-se por dois motivos: 1- Os fármacos quimioterápicos apresentam uma distribuição sistémica no organismo (ou seja, espalham-se por todo o organismo através da corrente sanguínea, não atuando exclusivamente sobre as células tumorais), desta forma, muitos deles atuam de modo indiscriminado sobre as células normais que naturalmente se replicam rápido, como é o caso das células que revestem o intestino, conduzindo à sua destruição. Deste modo, o intestino fica temporariamente “desprotegido” predispondo o animal a uma infeção de origem alimentar, pela facilidade que os microorganismos terão em entrar na corrente sanguínea, podendo em casos graves, conduzir a uma septicemia; 2 – Frequente administração de protetores gástricos durante os tratamentos, como são exemplos o omeprazol, ranitidina e sucralfato. A utilização destes medicamentos conduz a uma elevação no pH gástrico, que desta forma perde a capacidade de eliminar eficazmente, a grande maioria dos microorganismos presentes no alimento. Esta é normalmente a primeira barreira de defesa face aos microorganismos presentes nos alimentos, para os animais que são alimentados com dietas cruas.

Quanto às dietas comerciais, quando se deseja mesmo muito mantê-las, devem evitar-se as dietas mais calóricas como as formuladas para animais em crescimento ou convalescença.

A dieta cetogénica é atualmente considerada a dieta mais indicada para controlo da grande maioria dos tumores e suas metástases, tendo como fundamento a publicação de diversos artigos, livros e relatos de pessoas, mas também já com bastante fundamento na medicina veterinária. Mas afinal porque funciona esta dieta no controlo dos tumores e suas metástases? O princípio base é de que permite “esfomear” as células tumorais, conduzindo assim à sua morte, enquanto permite que as células saudáveis continuem a proliferar. Veja-se: A glicose é o principal nutriente utilizado pelas células saudáveis para a produção da sua

própria energia – as moléculas de ATP (adenosina trifosfato) - este processo, denominado por respiração celular, ocorre numa organela que se encontra dentro das células, a mitocôndria. Células neoplásicas apresentam defeitos no funcionamento da mitocôndria, o que as torna ineficientes no processo de respiração celular, ou seja, para produzir as moléculas de ATP que precisam para se multiplicarem, têm de consumir uma quantidade muito superior de glicose quando comparadas com as células normais. Por outro lado, estas células neoplásicas dependem quase exclusivamente da glicose para produção de energia, por apresentarem dificuldade em usar outras fontes, como é o caso dos corpos cetónicos provenientes da gordura. Os corpos cetónicos são facilmente utilizados por células saudáveis, sendo que uma molécula de corpos cetónicos rende ao organismo mais do dobro de energia do que uma molécula de glicose. Baseado neste princípio de disfunção metabólica surge a dieta cetogénica, rica em gordura, moderada quantidade de proteína e reduzida quantidade de hidratos de carbono, tem como objetivo privar as células neoplásicas de energia induzindo assim a sua morte.

Devido às suas características muito específicas, esta dieta constitui um regime alimentar muito estrito, pois tem como objetivo elevar a concentração sanguínea de corpos cetónicos e ao mesmo tempo manter a glicemia perto do seu limite inferior. Nem todos os animais são candidatos à realização desta dieta - é necessária uma correta avaliação bioquímica do mesmo - e implica dedicação por parte dos donos - na realização de medições diárias de glicemia e corpos cetónicos (o que pode ser feito em casa, pelos próprios donos).

Esta dieta é considerada, atualmente, como uma abordagem direta no tratamento oncológico, uma vez que, implica uma profunda alteração metabólica do animal, podendo ser utilizada em combinação com outros métodos de tratamento.



Suplementos

Nas dietas destes pacientes há suplementos que, regra geral, devem ser utilizados de forma a optimizar o estado geral do animal, reforçando o seu sistema imunitário, auxiliando na reparação de células normais e potencializando a morte das células neoplásicas:

  • Ácidos gordos ómega 3, nas suas formas EPA e DHA

  • Fitonutrientes – naturalmente presentes em vários vegetais ou especiarias, como o caso da curcuma

  • Probióticos ou Simbióticos

  • Suplementos de auxílio à função hepática

  • Anti-oxidantes (A sua utilização pode estar contra-indicada de acordo com o tratamento que o animal esteja a fazer.)


Auxiliar nos enjoos e Aversões alimentares


É frequente que animais com processos oncológicos que estejam a realizar quimioterapia (mas não estritamente estes), passem por fases de náuseas e até de aversão aos alimentos. Nestes casos o animal deve ser auxiliado com a administração de medicação anti-hemética (para não vomitar e controlar as náuseas), sendo muitas das vezes, necessário ainda, a utilização de medicação para estimulação do apetite.

Alternar os ingredientes da dieta ajuda também a que não haja uma associação direta da ingestão da comida ao desconforto da náusea, diminuindo a probabilidade de rejeição da mesma.

Ainda de acordo com o relato de pessoas que fazem quimioterapia, alguns destes fármacos, nomeadamente os agentes da platina, provocam um sabor metálico, podendo preventivamente nestes casos, alterar-se o recipiente em que o animal come, para uma taça que não seja de metal.

Com a progressão da doença, ou mesmo como auxílio numa fase inicial da abordagem terapêutica, pode ser necessário recorrer a métodos de alimentação assistida, seja manualmente ou pela colocação de sondas de alimentação. A indicação para avançar para este tipo de solução é quando o animal não se encontra a comer de forma consistente, não estando a ingerir pelo menos 66% das suas necessidades energéticas diárias em repouso = 70x(peso do animal)^0,75.